quinta-feira, 29 de julho de 2010

Sobre o Autor Desembargador Carlos Livino de Carvalho.

Discurso de CÂNDIDA MARIA SANTIAGO GALENO quando da sucessão na Cadeira 35 da Academia Cearense de Letras

Srs. Acadêmicos:

Cumpre-me ao tomar posse da cadeira 35, para a qual a vossa magnanimidade me elegeu, cadeira patrocinada por Tomás Pompeu de Sousa Brasil e ultimamente ocupada' por Carlo Livino de Carvalho, fazer o elogio dessas duas figuras do maior realce panorama mental do Ceará. Comecemos pelo último, para dar cumprimento ao preceito evangélico os últimos serão os primeiros.
Carlos Livino de Carvalho nasceu no Recife, na rua Estreita do Rosário, em 17 de fevereiro de 1881, sendo filho legítimo e único do perito contador e Cel. da Guarda Nacional Francisco Livino de Carvalho e de sua mulher Ana Josefina Ribeiro de Carvalho. Infância e adolescência, passou-as na mesma cidade. Fêz preparatórios no Colégio Pritaneu, na rua do Hospício, e o Curso de Direito na Faculdade do Recife, bacharelando-se em 17 de março de 1902, quando dela era Diretor o Dr. Joaquim Tavares, sendo seus colegas de turma José Queirós, Barros Guimarães e Cunha Melo Filho, de Pernambuco, Sebastião Fernandes e Galdino Lima, do Rio Grande do Norte. Turma pequena, em virtude de os seus componentes , terem feito 2 anos num, o que naquela época era permitido.
Augusto Vaz, Sofrônio Portela a e Tito Rosa foram os seus professores.

Concluído o curso, Livino de Carvalho tratou de pôr em dia os negócios do coração - já andava enredado pelo amor da jovem Elvira de Meneses, que frequentava a Escola Normal Pinto Júnior, onde se formou com 16 anos e foi nomeada professôra da referida Escola. Como já se amavam havia dois anos, trataram de casar-se, o que ocorreu em maio de 1902. O casamento foi simples, realizou-se em Olinda, na capela de S. José dos Pescadores, oficiado pelo então vigário e mais tarde Primaz da Bahia, D. Álvaro Augusto da Silva. Era noite e chovia torrencialmente, sinal de sorte para os nubentes; noivo e convidados tiveram dificuldades em fazer com trajes enxutos o trajeto entre o Recife e Olinda. O bom prenúncio da chuva realizou-se na vida dêles - foram felizes e viveram muitos anos: êle amou extremamente a espôsa, •com quem celebrou 47 anos de casados e Os 9 filhos que ela lhe deu, e dos quais estão vivos Maria de Lourdes Livino Pôrto Carrero, residente em Fortaleza, Fernando Livino de Carvalho, advogado e intelectual, radicado no Recife; Ari, Fiscal-Geral dos Comerciários no Rio de Janeiro, e Euvaldo, técnico em- eletrônica, todos quatro a continuar galhardamente a tradição de cultura e integridade moral legada pelos pais.
Formado e casado, Livino de Carvalho tratou de instalar, em 1904, em Carpina, com um colega, Alfredo Bittencourt, o "Colégio Sete de Setembro", onde estudaram, como alunos internos, Assis Chateaubriand e seus irmãos Jorge e Osvaldo.
O mestre recordaria pelos anos em fora o fulgor da inteligência do grande às do jornalismo brasileiro, que foi seu aluno em Carpina, e a quem dedicou sempre inalterável estima.
. O "Sete de Setembro teve duração efêmera, menos de dois anos. Desfeito o Colégio, Livino viajou para o Rio de Janeiro, onde permaneceu alguns meses. De volta, foi convidado para ser Juiz em dois pontos extremos e opostos do país: Amazonas e Santa Catarina, não aceitando nenhum dos convites.
Em novembro de 1907, foi nomeado Juiz Municipal de Barbalha, no Govêrno do Dr. Accioly. Nomeado Juiz de Direi to do Crato, ali permaneceu por mais de 2 anos. Estava-se no tempo do Govêrno de Marcos Franco Rabelo e intensa onda de oposição lavrava por todo o Ceará, especialmente no sul do Esta-

do, onde o Dr. Floro Bartolomeu da Costa, que voltava do Rio de Janeiro, acompanhado do "Dr. José de Borba Vasconcelos, instalou Q. quartel-general da oposição ao Governo. Livino de Carvalho escreveu excelente trabalho - "A Tomada dó Crato" (1) onde descreve com muito vigor de expressão e abundância de minúcias êsses fatos. Como Juiz de Direito, teve que permanecer à frente da Comarca, sendo um dos poucos moradores da cidade que não abandonou a casa e ainda "abrigou vários rabelistas que não quiseram ou puderam fugir corrente à luta".

Foi com pranto na voz e no olhar que D. Bidon me relatou algumas passagens da vida do marido, quando Juiz no interior, os perigos que arrostou por não abdicar da sua dignidade de magistrado íntegro em favor de nenhuma conveniência pessoal ou partidária. No exercício das suas funções, êle era austero, sem deixar de ser humano, o que se evidencia sobejamente através dêste fato que me foi relatado por ela:
Certa feita, um criminoso de 7 mortes, alcunhado de Zé Pequeno, fôra prêso na Serra de São Pedro e trazido algemado de mãos e pés para a cadeia do Crato. Muito maltratado pelas algemas, êle mandou pedir ao Juiz que o livrasse delas. O pedido alarmou â guarnição do presídio em face da alta periculosidade do suplicante. Não obstante isso, Livino de Carvalho mandou tirar ao prêso as algemas. Qual não foi a sua surprêsa quando, por ocasião da tomada do Crato, os romeiros lhe batem à porta e, ao abri-Ia, o Juiz depara-se com Zé Pequeno a comandar o grupo. Criminoso e magistrado defrontam-se e o primeiro bate em retirada, não sem antes ter dito: - O Dr.mora aqui? Pois fique certo de que a sua casa está garantida.
Naquela ocasião de subversão da ordem aconteceu o inesperado - a casa do Juiz foi guardada e defendida espontâneamente pelo temível Zé Pequeno, que não esquecera o alívio que lhe proporcionara a retirada das algemas.
No Crato se encerraria o perigrinar de Livino de Carvalho pelas comarcas do interior, pois, em 1914, era nomeado Juiz de Direito de Casamentos e do Registro Civil de Fortaleza. Nesse posto êle casou meio mundo - Dr. Eliezer Studart da Fon-


seca e D. Ester Salgado foram casados por êle e quanta gente mais!
Livino de Carvalho integrou-se de tal maneira na vida cearense que, solicitado a aceitar, no Recife, sua terra natal, o cargo de Desembargador, recusou-o, mas com ele foi distinguido em 1933, no Ceará, já servindo interinamente no cargo, quando ocorreu a sua promoção. “E quando, em 1941, afastou-se da vida pública pela aposentadoria, depois de mais de 30 anos de assinalados serviços prestados à magistratura cearense, eis como Eusébio de Sousa comenta o fato:
"Muito lhe honra a atitude do Tribunal. de Apelação ao tomar conhecimento do requerimento em que solicitava, ao governo, aludida aposentadoria, resolvendo, pela unamidade de seus pares, fazer um apêlo ao seu douto membro na desistência da mesma, sendo então designada, para entender-se com o desembargador Livino sobre o assunto, uma comissão composta dos desembargadores Leite de Albuquerque, Olívio Câmara e Daniel Lopes. Na sessão ordinária de 15 de setembro do aludido ano o Des. Livino de Carvalho expressou ao Tribunal os seus agradecimentos ao modo carinhoso que tivera para com a sua pessoa no propósito evidenciado, gesto por demais honroso para a sua vida de magistrado. Apresentou aos seus dignos colegas os justos motivos que o levaram a requerer a aposentadoria em aprêço, manifestando aos mesmos sua gratidão, com a reafirmativa de não lhe ser possível atender o pedido da Colenda Côrte de Justiça, pelas razões que expunha no momento.
Na sessão de 31 de outubro, o sr. Desembargador Olívio Câmara, aludindo à nomeação do Dr. Pontes Vieira para preencher a vaga do Desembargador Livino de Carvalho, teve, para com este, palavras elogiosas, propondo, por fim, ao Tribunal, a inserção de um voto de aplauso ao mesmo pela sua atuação inteligente e proveitosa, durante o período de oito anos em que S. Excia. serviu no Tribunal à causa da justiça como juiz esclarecido, íntegro e trabalhador. Tal voto teve a aprovação de todos os demais desembargadores presentes à sessão, manifestando o Dr. José Pires de Carvalho a solidariedade da Procuradoria-Geral à deliberação do Tribunal.

De grande significação para a sua vida funcional é o seguinte telegrama firmado pelo Sr. Major Roberto Carneiro de Mendonça, ao ter conhecimento da aposentadoria do Desmbargador Livino. Quando Interventor Federal, o Major Carneiro de Mendonça sancionara e dera execução à Lei n. 1.007, aumentando de mais dois o número de desembargadores do tribunal de Apelação, tendo então contemplado o digno magistrado com a nomeação para um dos ditos lugares, ato recebido, pela sua justeza e acêrto, com expressivas demonstrações de regozijo.
“Rio,28 - setembro, 1941 - Desembargador Livino de Carvalho – Fortaleza - Recordando, com prazer, aplausos recebidos quando promovi sua elevação Tribunal Justiça, lamento judiciário cearense esteja privado brilho sua colaboração. Cordialmente, Carneiro de Mendonça." (2)


* * *


Falei-vos até agora de Livino de Carvalho como homem púb1ico, no exercício da árdua tarefa de magistrado, mas não se resume nisto a existência de uma criatura.. Não vos disse ainda que ele “foi poeta, sonhou e amou na vida". E é pena que dos seus vesos, publicados na imprensa, só possua para mostrar-vos êste sonêto:


A V E M A R I A

Ave Maria! excelsa de candura!
Cheia de graça, amor e sofrimento,
Outorga-nos teu mago valimento
E a nossa dor modera, a nossa agrura.

A luz criadora em ti se fêz alento,
Oh! Flor do céu, de tôdas a mais pura,
E das virgens bendita pela alvura
Do leito em que vagiu um deus-portento.


Mãe dos humildes, vela a nossa estrada
Cheia de urzes, desbrava-a e põe luz
Onde tateio e os olhos não vêem nada

Protege-nos, bendiz a nossa cruz,
Como eu bendigo a tua dor sagrada,
Teu doce, meigo e divina Jesus!

Homem de trato fidalgo, porte elegante e bela fisionomia, Livino de Carvalho tinha temperamento alegre e• comunicativo, gostava da vida social, freqüentava clubes, sendo. Diretor Presidente dos "Diários", ao qual comparecia assiduamente. O Dr. Eliezer Studart, seu grande amigo e que privou longamente da sua intimidade, ainda conserva encantamento do convívio que mantiveram.
A política jamais o seduziu e os altos postos que galgou na vida - Secretário do Interior e da Justiça por duas vêzes, Secretário de Polícia e Segurança Pública, Interventor Federal, não os deveu a ela, senão à sua integridade moral, ta,lento e cultura.
O "hobby" predileto de Livino de Carvalho era a arte fo• tográfica: foi um dos fundadores da Sociedade de Fotografia e Cinema. Vi em sua casa álbuns com fotografias belíssimas por êle apanhadas - ora um quebrar de onda, ao alvorecer.
surpreendido pela objetiva, na Praia de Iracema, ora os carnaubais da estrada de Mecejana, a refletirem-se no espelho das aguas; marinhas, chegadas de jangada ii praia. Saraiva Leão foi seu companheiro dedicado e excursionaram juntos para apanhar flagrantes fotográficos surpreendentes.
Como homem de letras, não ficou circunscrito aos trabalhos de doutrina e jurisprudência. Tanto se dedicou ao jornalismo, dirigindo o "Correio do Ceará" em sua primeira fase e redatoriando o "Estado do Ceará", como a estudos sérios, que o levaram a pertencer ao Instituto do Ceará. Seu trabalho A COUV ADA, no domínio da antropologia, logrou tal destaque que o Dr. Afonso de Taunay, então diretor do Museu Paulista, solicitou ao autor permissão para incluí-lo nos ANAIS do referido Museu, Com a oferta de uma separata.

A COUVADA, curiosa prática entre os nossos selvagens tupinambás, guaranis e outros, de guardar o marido o leito, quando a mulher pare e de ocupar-se dos cuidados do recém- nascido, bem como de receber agrados e demonstrações de alegria dos amigos e parentes, enquanto a parturiente; como se como se nada houvesse acontecido, desempenha normalmente os encargos domésticos, A COUVADA foi exaustivamente pesquisada em suas origens por Livino de Carvalho e o alto mérito desse trabalho pode ser avaliado por essa solicitação de publicidade por intermédio do diretor do Museu Paulista.

Além d'A COUVADA e A TOMADA DO CRATO, há também o estudo EGASTENIA, incluído no livro que, reunindo os três trabalhos em aprêço, foi publicado ultimamente, no Recife, por seu filho Fernando. .
Quando Livino de Carvalho, muito doente, procurou o Rio de Janeiro como última esperança, o destino armou-lhe ali curiosa cilada - professor e aluno que tão cordiais relações mantiveram em tempos idos, no Colégio de Carpina - Livino de Carvalho e Assis Chateaubrind reencontravam-se sob o mesmo tecto, na Casa de Saúde Dr. Eiras, em Botafogo, sem que um tomasse conhecimento da presença do outro. A gravidade do estado de saúde de ambos fêz com que se ignorassem mutuamente.
A morte marcara com eles aquele encontro sinistro, do qual Chateaubriand salvava-se miraculosamente, enquanto Livino sucumbia em 8 de abril de 1960.


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N O T A S

1- “A Couvada – A Tomada do Crato – Egastenia” – C. Livino de Carvalho – Gráfica Editora do Recife S.A – Pernambuco - !959.
2- “Tribunal de Apelação do Ceará” – Eusébio de Sousa – Asa Artes Gráficas S.A., Rio – 1945 – pág. 213

terça-feira, 27 de julho de 2010

A TOMADA DO CRATO.

Revista trimensal do Instituto do Ceará – t. XLVI, 119 – 136.
Transcrição da Gazeta de Notícias de 10-7-1928. Trata-se de uma carta do então Juiz Carlos Livino de Carvalho ao Dr. Floro Bartolomeu da Costa, datada de 3-11-1915 sobre a Revolução do Juazeiro e os sucessos que a precederam e sucederam. Diz que não tomou nota dos acontecimentos e se baseia apenas da memória que tem dos fatos. O Dr. Floro Bartolomeu da Costa, que solicitou esse relato do Autor, foi um dos chefes do movimento de 1913-14, desenrolado em torno da figura de Padre Cícero.

Fortaleza, 3 de novembro de 1915
Ilustre, amo. Dr. Floro Bartolomeu da Costa

Tenho sua carta de 15 do passado mês.
Nos termos amplos em que se ela encontra redigida, a resposta demandaria largo esforço e documentação que não possuo. É certo que vi quanto acorreu no Crato, antes, durante e após a Revolução de Juazeiro, mas não tomei notas das ocorrências, e hoje, somente com recursos de minha memória, poderei referir o que observei.
Nunca pretendi fazer a história daquele movimento e sei bem que me resultaria falho o empenho em tentar agora uma empresa para a qual me encontro desaparelhado.
Respondendo, entretanto, à sua instância, direi sempre alguma coisa de mais saliente.
Por motivos vários e de natureza complexa, crescia aí por 1913, no Estado do Ceará e mais se avolumava na zona sul, uma intensa oposição ao govêrno do Sr. coronel Marcos Franco Rabelo.
Os ânimos agitavam-se e surdiam ameaças, sem que cessassem as causas da agitação. O govêrno revelava-se inábil, inepto e desapercebido da evidente fraqueza resultante de 'lhe ser adversa a política central dirigida pelo Sr. general Pinheiro Machado.
Pelos fins daquele ano, o Dr. Floro Bartolomeu da Costa voltava do Rio de Janeiro acompanhado do Dr. José Borba Vasconcelos e espalhou-se um boato de serem ambos portadores de importante missão partidária. Os mais exaltados rabelistas do Crato e de outros pontos vizinhos, no intuito de falhar o perigoso trama, fizeram ocupar as estradas e os caminhos conduzentes ao Joazeiro, pondo em cada qual um piquete incumbido, segundo uns, de assassinar o Dr. Floro e o Dr. Borba, segundo outros, de tomarlhes grande cópia de armas e de munições que supunham ocultas no seu combôio.
Os dois, porém, conseguiram com habilidade extrema iludir as emboscadas e chegar sem dano ao seu destino. Pouco depois, agentes do govêrno surpreendiam uma preciosa correspondência política destinada ao Joazeiro e isto, porque lhes contrariara os planos, irritou sobremaneira os chefes da oposição.
Por estas ou por outras quaisquer razões, certo é que, em 9 de Dezembro do referido ano, o Dr. Floro Bartolomeu e os seus correligionários deram comêço à conhecida revolução depondo as autoridades locais e desarmando o destacamento policial.
Não se conheciam os fins do movimento e corria com insistência que a vila pretendia fazer-se, com outros municípios vicinais, um novo Estado da Federação. Após a referida insurreição de 9 de Dezembro, os acontecimentos precipitaram-se e tumultuaram de tal maneira que seria difícil narrá-los com precisão e cronologia.
Sei que a perspectiva era má para todos, de dúvidas, ânsias e perigos.
Que faria o coronel Franco Rabelo? Que tencionaria o Joazeiro? Todos duvidavam de que a revolta obtivesse êxito, porque seria preciso vencer dificuldades aparentemente insuperáveis para chegar ao Crato, ao Iguatú, a Fortaleza, onde, em última hipótese, o govêrno se acastelaria. Era, por isto, mais aceita a versão de que o Dr. Floro Bartolomeu desejasse, apenas, propiciar uma intervenção do poder federal, que, certamente, lhe seria favorável.
Nada, porém, se tinha em certeza, pois tôdas as comunicações com os insurretos estavam cortadas.
Um capitão de nome Ladislau, delegado de polícia e comandante da 4º companhia do 2° batalhão estadual estacionada no Crato, homem insensato e mau, praticou inutilmente quanto desatino pôde no intuito, ao que se supunha, de amedrontar os revoltosos. O Joazeiro, porém, não se movia e aguardava o choque do inevitável ataque que os governistas já anunciavam. Apresentavam-se os soldados franquistas e os civis a quem chamavam patriotas. Eram, no geral, êsses patriotas o que todos chamam cangaceiros e vinham dos municípios proxlmos concentrar-se em Crato. Rapazes, filhos de famílias rabelistas, também se armaram, mas fôra logo de ver que êles se não exporiam em uma luta a valer. Calçavam vistosas alpercatas de polimento, punham chapéu de couuro fino e revirado, lenço cuidadosamente laçado ao colo, punhal de fantasia, rifle polido e bornal feito com esmêro, mal lembrando o sujo galinheiro do cabra sertanejo. Tinham ares de quem fôsse a uma batalha de mascarados na roça. Mas os dias escoavam-se sem notícias do Joazeiro, cujos aprestos e recursos eram totalmente desconhecidos. Os franquistas gritavam constantemente nas ruas do Crato, em comícios, em boletins, a destruição da raça maldita dos romeiros.
A cidade foi posta em sítio pelos governistas e depois das dezoito horas ninguém saia, ou entrava sem ordem do capitão Ladislau. Mandou êste afiar os sabres dos seus soldados para degolar os jagunços, que eram os joazeirenses; esbofava-se em medidas inúteis e nada faziá de proveitoso à sua causa porque nem sequer procurava descobrir os elementos de que o Joazeiro disporia na luta iminente. Não era grande o temor, visto confiarem todos na ação rápida e enérgica do govêrno que, embarcara sem demora todo, o batalhão de polícia. Esse batalhão, segundo corria, transportava metralhadoras e canhões.
Também, dizia-se, o Joazeiro possuia canhões e metralhadoras comprados e tarzidos pelos chefes revoltosos.
A 18 de Dezembro, pela manhã, entrava no erato a tropa, cujo efetivo não me pareceu exceder uns 500 homens. Canhões e metralhadoras não trouxera.
Ficavam, assim, às ordens do govêrno, na cidade do Crato, onde se concentravam todos os recursos, cêrca de 800 a 1.000 homens. Embora heterogênea e desprovida de preparo militar, essa fôrça teria sido bastante, se fôra bem guiada, para vencer os contrários. Soube-se depois, que nessa época os revoltosos dispunham de mui pouco armamento e de munição reduzidíssima, 'além de serem gente ignorante das coisas da guerra e sem chefes competentes. Mas o batalhão, tendo ,chegado a 18 e passado quase todo o dia 19 em formatura, ao sol, logo a 20, cêrca de 10 horas, seguiu com os demais combatentes para o ataque. Os soldados achavam-se estropiados da longa viagem de 28 léguas feitas a pé e não tiveram descanso• no Crato, de modo que me pareceram incapazes de um esfôrço sério e prolongado. Sobretudo, porém, me impressionou a circunstância de ter o comando desdenhado completamente um plano estratégico de campanha e, até, o conhecimento topográfico e militar da praça. Achei, por isto, leviano o convite feito pelo comandante, na hora da saída, aos seus amigos para, em companhia dos chefes revoltosos, jantarem à noitinha no Joazeiro! Tão descautelosa confiança, entretanto, não deve ser levada à conta de ignorância, ou pouco interêsse, porque ela assentava na crença arraigada, na opinião profundamente sentida pelos governistas que se tratava de um simples motim, arruido sem valia, fácil de esmagar. Este pensar vinha de informações fornecidas pelos rabelistas do Crato e de outros lugares, e de relatos de oficiais de polícia inexperientes que o govêrno mandara, tempos atrás, ao Joazeiro, incumbidos de ver e estudar o meio e os homens.
Quem se tomaria de cuidados, dispondo de mil praças, para fazer cessar um motim de jagunços? Seria, apenas, o aborrecimento de uma viagem estafante e a vantagem de uma fácil diversão militar.
Convenceu-me disto o seguinte episódio: - Chegado o batalhão, fui como juiz de direito da comarca, visitar a sua oficialidade. Em conversa com o co• mandante e o fiscal, êste me declarou que atacariam a praça no dia seguinte. E como eu lhe perguntasse se a conheciam devidamente, respondeu: - Não é preciso. Aquilo não vale nada. Ao primeiro ataque estabelece-se a confusão entre os jagunços; ao segundo a debandada será geral e, então, nós poremos queresone e tocaremos fôgo no covil.
Enganavam-se. Seguiram, como ficou dito, as tropas, tomando a estrada, de São José, ou Estrada Nova, a mais larga, mais importante das que ligam o Crato ao Joazeiro, exatamente a mais própria para a marcha. No entanto, por isso mesmo, essa estrada, bem que não devesse ser abandonada, não deveria ter servido para o ataque principal, porque seria de esperar que o inimigo a fortificasse com esmêro. Re• leva ainda notar que êsse ataque era único, feito a um tempo com as fôrças tôdas. Executado por infantaria, sem reconhecimentos prévios convenientes, sem preparo de artilharia, logo aos primeiros disparos da fuzilaria adversa, que defendia a vila, a formação atacante se desfez e a luta prosseguiu agindo os agressores em pequenos grupos, conforme a conveniência do momento.
Descobriu-se, ao primeiro contacto e com geral surprêsa, a existência de profundo e largo vaIado com parapeito de terra alto e seteiras, constituindo tudo isto um serissimo obstáculo a transpor para aIcançar a vila. Essa defesa circundava todo o perimetro do Joazeiro, numa extensão de muitos e muitos quilômetros e, por trás dela, mascarados, os revoltosos atiravam de pontaria segura, sem o menor perigo. Que fazer? Lançar as tropas contra os vaIados e trincheil1as, quando nem dêles se podiam aproximar? Não havia ponteiros; não se via, ao menos, o adversário. Além disso tudo, os soldados e patriotas desconheciam a carabina Mauser, com que foram em boa parte armados, de modo que as balas nem os edifícios alcançavam, como depois, se verificou.
Não tardou a impressão do inevitável fracasso e o comandante, em face do irremediável, fez a única coisa possível no sentido de velar um pouco a dura realidade: - Ficou a tirotear com os revoltosos o dia todo, abrigando os seus homens em pedras, árvores e casas de redondeza.
Certo que êsse tiroteio resultava em pura inutilidade para os atacantes, mas não era possível recuar logo após os primeiros tiros. Por outro lado, a ineficácia do fogo encorajava os atacados, que se defendiam cada vez mais animosamente. Se bem que a fuzilaria perdurasse e fôsse até a noite, desde cêrca das 15 horas começaram a tornar ao Crato soldados desgarrados. Às 17 horas apareceu o primeiro oficial.
Depois mais outro e, por volta das 20 e meia horas, o resto do batalhão e dos patriotas reentrava na cidade. A consternação foi profunda entre os governistas, sobretudo porque até a tarde as notícias lhes eram tôdas favoráveis. Afirmava-se que logo ao primeiro embate as tropas ganharam o centro da vila e estavam lutando ora no mercado, ora na igreja tal, ora nas imediações da casa do revmo. padre Cícero Romão, etc. A volta do batalhão, porém, mostrou serem os boatos mentirosos e o caso do Joazeiro grave, não uma simples arruaça, como se supôs. Entretanto, resultou a vantagem de se terem melhor conhecido as duas hostes opostas.
No Crato, o estado dos espíritos se transformou.
Antes, nenhum rebe1ista dissera mal da ação das tropas mas, depois, cada qual que mais acerba fizesse a sua crítica. O comando, já então suficentemente esclarecido, mostrava-se ponderado e não falava em voltar ao combate. Passaram-se, após o 20 de Dezembro, longos dias em preparos. O povo esperava canhões e metralhadoras vindos de Fortaleza e enviados pelo general Dantas Barreto, então governador de Pernambuco.
Também viriam muitos soldados e civis para uma nova ofensiva. Como a demora se fôsse alongando, surgiu e cresceu a idéia de não esperar mais e quiseram levar um segundo assalto com os elementos existentes. Recusou-se, porém, o chefe das fôrças e declarou que não mais tentaria vencer o Joazeiro com os recursos de que dispunha, por julgá-los insuficientes.
Aqui volto aos patriotas de alpercata de polimento. Eles tinham organizado um corpo de voluntários e, ao chegar ao Crato o primeiro batalhão, entregaram ao comandante uma relação dos alistados. O coronel mui prontamente declarou aceitar o valioso e espontâneo oferecimento, acrescentando que os patriotas ficavam desde logo sujeitos à disciplina militar. O que faltasse ao serviço seria punido regimentalmente.
Foi um Deus nos acuda!
Cada qual procurasse o meio de se ver livre da rascada. O certo é que, no dia 20 de Dezembro, daquêles valorosos patriotas uns cinco ou seis responderam à chamada.
Continuavam as tropas no Crato e a demora ia abatendo os ânimos.
As famílias retiravam-se no receio de uma apregoada investida da gente de Joazeiro. Quase diàriamente chegavam reforços de patriotas vindos de todo o sul do Estado e uma vez por outra entravam comboios de munições e soldados remetidos de Fortaleza.
Havia, também no Crato, grande porção de bombas de dinamite levadas da Capital.
Acontecia, porém, que tôda noite desertavam numerosos soldados e patriotas, de modo que o efetivo disponível pouco ou nada crescia.
Nêsse tempo, já estava manifesto que o govêrno, por maior que fôsse o seu empenho, não conseguiria gente bastante para dominar o inimigo em nova investida. , O comandante, coronel Alípio de Barros, radicava-se no propósito revelado de não mais se expôr sem boas probabilidades de êxito. Um oficial do exército, 2.° Tenente José Armando de Oliveira, que aparecera no Crato, vindo de Joazeiro, onde fôra a mandado do Inspetor da Região Militar, afirmou, em minha presença, que somente uns três ou quatro mil homens municiados e aguerridos conseguiriam transpor as defesas do Joazeiro e vencer as hostes que vira por lá. Os políticos, porém, não queriam atender a essas razões e acusavam o comandante de fraqueza, mêdo e, até, de conivência na revolta. O certo é que obtiveram a destituição dêle e a substituição pelo capitão Ladislau. As proezas anteriores dêsse capitão levaram aos olhos de todos os homens sensatos a visão da perda fatal da causa governista.
A minguada confiança posta nas tropas, a intolerância para os que não eram franquistas, o quase desaparecimento da feira e do comércio com as conseqüentes dificuldades da vida, os constantes boatos de perigosas surprêsas dos romeiros, as repetidas escaramuças com tiroteios e mortes efetuadas em tôdas as estradas, os alarmas noturnos, inúmeras outras vexações inevitáveis tornavam insuportável a estada na cidade e pouquíssimos eram os que, não estando em armas, inda ali se encontravam.
Não pretendem estas linhas mais do que traçar os contornos e saliências dos acontecimentos, postas de lado as minúcias de menos significação.
Consigno, todavia, uma referência à história burlesca de um célebre canhão, cuja lembrança nenhum contemporâneo terá sem a floração de um riso franco.
Espalhavam os rabelistas com alegre e vivo interêsse a vinda de urna poderosa peça, na qual o seu artilheiro, inglês valente e experimentado, montava noite e dia, estrada em fora, não se apartando dela nem para dormir. Cada tiro dêsse prodígio mataria dezenas• de pessoas!
Afinal, chegou ao Crato um pequeno canhão de . bronze, tipo século XVII, com um metro, ou pouco mais de comprido, fabricado em Fortaleza. O inglês artilheiro era um mito. Embora evidentemente ineficaz, o engenho foi levado às imediações do Joazeiro, no segundo ataque, mas os poucos tiros que deu redundaram em uma excelente distração para os romeiros que ao verem a bala voar vagarosamente por sôbre os telhados esconjuravam-na e tangiam-na:
- Chôo ! maldita...
O novo comandante decidiu a segunda investida.
Já não era sem tempo. O sul do Estado sofria grandemente as conseqüências da situação calamitosa, que se ia eternizando. O Crato era uma ruína; as suas fôrças vivas aniquiladas, deserto dos moradores, as ruas inundadas de gente de tôda espécie e catadura / coberta de armas; ao anoitecer remontavam-se nas esquinas as sacas de algodão à guisa de trincheiras e, durante o dia, os "meetings" e os exercícios militares não permitiam descanso.
As amiudadas escaramuças nos caminhos, as emboscadas, as selvagerias e atrocidades 'cometidas por tôda a parte geraram uma angústia insofrível e o geral desejo de acabar com aquilo. Era, então, inverno copioso. As pesadas chuvas fizeram do solo um charco; as ravinas, córregos e vessadas transbordavam; a umidade penetrava tudo. Apesar disto, resolvera-se pôr cêrco ao Joazeiro. Pretendiam enfraquecer-lhe a resistência com permanente ação, que o obrigasse ao dispêndio incomportável de munição e qàe o reduzisse à fome. No entanto, a mim e a outros o assédio pareceu impraticável, porque as fôrças sitiantes eram eviden.temente exíguas. Nem mesmo operando uma subdivisão perigosa, os contingentes poderiam env~lver tôda a vila, tão vasta era ela. Demais, que danos poderiam sofrer os sitiados revestida a praça de trincheiras altas e espessas, e não dispondo os sitiantes senão de fuzilaria e de uma fuzilaria desvairada?
Como prolongar suficientemente o bloqueio, não tendo as tropas abrigos e vestimentas próprias, expostas, como ficariam, à chuva, ao frio e à umidade doentia? Que resistência não dobraria ao aguaceiro, à lama do matagal e das estradas, quando o corpo vestia um leve uniforme de brim, ou a roupa safada do patriota, e os pés calçavam sapatos inadequados, aIpercatas abertas, ou nem isto possuiam? E a alimentação pobre e mal preparada em trempes improvizadas? Tudo isto era irremédiável. Mas tinha de ser assim e não houvera modo de não ser. Eu imagino êsse doloroSo período de nossa história como uma predestinação volvendo o seu destino sem lógica e sem apôio até perder-se misteriosamente na perplexão e no espanto de um êxito estupendo colhido nas dunas alvas de Fortaleza.
Como quer que fôsse, pela madrugada de 16 de Janeiro de 1914, abalaram do Crato as tropas. Com os contingentes, que de outros pontos seguiram, deviam tôdas elas, segundo se dizia, orçar por uns mil e duzentos homens. Talvez êsse número seja excessivo.
Durou o assédio, sob um aguaceiro constante, até o dia 23, em cuja manhãzinha se retiraram os sitiantes desesperados de qualquer triunfo, indo o grosso dêles, com o comando, para Barbalha. Apenas uma parte pequena veio para o Crato. A operação nenhum dano causou aos revoltosos, os quais nem interromperam os seus serviços de abastecimento de víveres, que iam diàriamente buscar em São Pedro e alhures.
A artilharia, como já referí, foi uma pilhéria e a peça não tardou em ir parar no quintal do revmo. padre Cícero.
Os soldados revieram ao Crato em estado deplorável: sujos, rotos, exaustos. A significação do novo insucesso era clara. Os amigos do coronel Rabelo, perdidas as esperanças de um auxílio de Pernambuco, achavam-se reduzidos a insignificantes elementos. Tinha-se, agora, como iminente a ofensiva dos Joazeirenses e isto fez retirarem-se os últimos moradores do Crato. As trincheiras reforçaram-se.
Fôra um desastre a mais a retirada do batalhão para Barbalha, porque sendo o Crato o centro da ação e a cidade mais importante da zona, sua conquista devia ser anelada pelos revoltos os e surtiria grande efeito moral. Aliás, a divisão das hostes seria de qualquer modo um êrro. Embora duas vêzes batidos, os governistas talvez ainda podessem defender a cidade com êxito se permanecessem unidos. Era de esperar que os vencedores não desdenhariam as vantagens do momento, nem permitiriam que o tempo sanasse o mal resultante do desbarato recente.
Não se pouparam esforços no sentido de recolher ao Crato as fôrças abrigadas em Barbalha, redobrava a vigilância na cidade e espalharam-se bombas de dinamite para o fim de serem jogadas contra os esperados invasores.
Iam as coisas assim quando no dia 24, cêrca de 14 horas, chegou um rapaz anunciando que a Estrada Nova estava coalhada de romeiros. A princípio, a novidade foi tida por inverídica e ameaçaram de punição o anunciante, que teve de escapar às pressas.
Logo, porém, veio a confirmação com os primeiros tiros disparados a uns dois quilômetros das ruas, entre os jagunços e o posto mais avançado dos rabelistas, que era o antigo cemitério dos coléricos. Seriam 15 horas. Os disparos sucediam-se, amiudavam, baralhavam-se, enquanto na cidade, onde eram nitidamente percebidos, generalizava-se uma sensação indefinível de terror para uns e de ansiosa expectativa para outros. Batiam as portas e se aferrolhavam;
cada qual procurava o melhor abrigo, ou posto no combate, ou a mais segura maneira de fugir. A Casa de Caridade e o Seminário regorgitavam. Houve cenas interessantes e dolorosas, sobretudo porque se afirmava que os romeiros sangrariam todos quantos pegassem.
A espingardaria aproximava-se claramente pelo setor leste. Pelas 16 horas bateram à minha porta.
Eram duas pessoas que me pediam abrigo. Uma delas, um negociante da cidade, estava descalço, enlameado, evidentemente sobressaltado. Trazia uma carabina, um embornal com poucas balas, cartucheira à cinta e disse-me que se achava no cemitério já referido quando receberam os primeiros disparos. A luta se travou sem tardança e foi viva. Ele com os seus companheiros atiraram sem cessar mas os agressores, atirando também, avançavam sempre. Se um romeiro caia morto, ferido, ou por tropêço, logo outro surgia em seu lugar, de modo que o número dêles não diminuia.
Ocultavam-se esperando que se esgotassem os tiros da carga dos fuzis Mauser, com que muitos dos defensores estavam atirando impetuosamente. Apesar do empenho de todos os defensores da velha necrópole, fôra impossível evitar o assalto e, por verem-se batidos, evadiram-se . Não queria mais brigar, pois se convencera da impossibilidade de vencer aquêles demônios; considerava o Crato perdido; os jagunços eram numerosíssimos, atiravam bem e já se encontravam na rua da Vala.
Realmente, os tiros já se ouviam muito perto e estralejavam como cartas de traques. De nada serviram as avançadas e trincheiras postas nas ruas extremas, pois com a primeira investida tudo fôra de rojão. Os disparos disseminavam-se por vários pontos até que, à tardinha, estouravam em todos os quadrantes da cidade. Todavia, observava-se muito bem que o norte e o nascente eram os lugares mais atacados e que o poente e o sul, com suas estradas do Seminário e do Lameiro, ficavam mais ou menos livres. Esta observação confirmou-se em todo o decurso do combate e posteriormente se soube que os insurgentes traziam ordens de deixar francas aquelas vias. Essa medida foi uma fortuna para muitos que escaparam sãos e se sal• varam por ela de um mau fim.
Troavam os fuzis quase sem cessar e assim foram noite a dentro, ora mais vivos, ora mais descansados, vêzes quase perdidos, para despertar sÚbitamente roucos, chiantes e irados como trovões reboando na quebrada. Houve intervalos maiores, de dez, de vinte mio nutos, mas êles eram o pior, o mais fatigante daquela agoniada ansiedade porque pareciam uma dilação e todos anelavam um fim próximo. Em cada momento se supunha reconhecer numa descarga mais alentada o fogo do batalhão que repetidas vêzes fôra chamado de Barbalha e não viera nunca.
- E' que o comandante Ladislau se espavorira e nem ainda se rendera o Crato, já corria êle a chapada do Araripe rumo a Fortaleza!
A tensão nervosa aumentava a acuidade auditi• va e não se perdia um som. Percebiam-se imprecações, gritos, lamentos e estertores dos infelizes que se ofendiam estúpidamente, sem motivos, até sem saber porque. No meio do infernal sussurro, como ingênua e bucólica evidência da fé profunda dos romeiros, ouvimos estupefactos, lá por muito longe, na zona pro• priamente do perigo, o som de roufenha harmônica acompanhando a dolência da conhecida oração popular.


Bendita, louvada seja
Nossa Senhora das Dores
Ela é a mãe de Deus
E, também, dos pecadores. . .


Mais outro canto. Agora, uma espécie de ladainha à Nossa Senhora, que os beliciosos devotos entoavam para as bandas da rua da Vala, ou da Boa Vista.
E de tal sorte se escoava a noite. Os pontos em que os tiroteios eram mais persistentes indicavam as trincheiras mais fortes. Lembro-me da tenacidade dos que defendiam certo pôsto da rua do Fogo, um quartel da praça São Vicente, a Intendência e as casas dos srs. coronéis José Teixeira e Francisco Zábulon.
Mas em todo êsse prolongado recontro uma circunstância importante salvava os combatentes:
Eles atiravam encobertos em muros, casas, etc. , de modo que pouco danosa resultava a fuzilaria. As balas cravavam-se nas paredes, nas portas e mui raramente atingiam um imprudente. Também, sôbre não atira. rem com precisão, era noite e o inimigo só se revelava pelo clarão do tiro.
Na manhã de 25, cêrca de 6 horas, houve um longo sueto. Soube-se, depois, que os romeiros exhauriram as munições. De Joazeiro, onde à noite mano daram buscar, poucos cartuchos vieram e com a de.
claração de não haver mais.
Também os rabelistas estavam em semelhante apertura.
Certo negociante da cidade, porém, forneceu aos atacantes alguns pacotes de balas com 'os quais êles ultimaram a conquista da praça. Em todo êsse interregno ninguém deixou o seu pôsto, mantendo ambos os lados as posições defendidas.
Do morro denominado Barro Vermelho ao nascente da cidade, os insurgentes gritavam, durante o forçado descanso: - Deixa estar, macaco; às 9 horas estaremos aí. Vocês, macacos, não fujam. E outras pilhérias.
Às 8 horas recomeçou o fogo. Haveria no Crato, no comêço da luta, ai por trezentos homens e com es•sa gente é que os romeiros se houveram. Parte dela revelou valentia. Contaram-me de um homem, o criminoso Antônio Leite, retirado com outros mais da cadeia e incorporados aos governistas, que atirou até as mãos lhe ficaram em sangue, retirando-se sômente quando já não podia usar a arma. Na rua da Vala um soldado morreu dando vivas ao coronel Rabelo.
Outros episódios dignos de nota ouvi narrar.
Por outro lado, os mofinos, ou espertos não esperaram grande perigo para se pôr em bom recato.
A dinamite não pudera ser utilizada, porque os atacantes não se descobriam; entravam em pequenos grupos por uma face das casas e, passando daqui para ali, se iam postar onde mais lhes convinha. A investida das 8 horas demonstrou que não tardava o final. Já eram poucos os núcleos de resistência e não havia nada a esperar, nem tempo a perder. Por entre 9 e 10 horas os mais obstinados abandonavam os redutos e fugiam.
Foi um salve-se quem puder. Os chefes, os homens mais decididos, que tiveram a coragem de combater até ali, escapavam-se também. Alguns montavam cavalos; a maioria seguiu a pé, pelos lados abertos da cidade, palmilhando a lama das estradas.
Estavam definitivamente vencedores os romeiros e entraram na cidade por volta de 10 horas. Não houve perseguição aos vencidos: Logo as ruas foram invadidas por uma grande massa de homens mal apessoados, sujos, maltrapilhos e famintos, trazendo à cabeça um grande chapéu coberto de pano encarnado e armados de espingardas de tôda espécie, do bacamarte ao Mauser. Grande parte conduzia, apenas, uma foice, um facão, um pau ferrado, qualquer coisa ofensiva.
Essa gente, de que tão mal se falava' e que tanto terror infundia, cessada a luta, nenhum dano pesssoal causou a quem quer que fôsse.Contaram-me, até alguns casos interessantes, que demonstram o propósito dos vencedores. - Um negociante, por exemplo, proprietário de certa loja na cidade, atirava pelos fundos de sua casa de residência, quando romeiros, que penetraram pela frente do prédio, o pegaram pelas costas! Pode imaginar-se o assombro, estupordêsse mal advertido guerrilheiro. Entretanto, os invasores limitaram-se a tomar-lhe as armas e a munição e hoje êle vive no Crato, podendoeontar melhor o caso que tão funda estupefacção lhe causou.
O primeiro ato dos invasores foi varejar tôdas as casas no intuito de se apoderarem de armas, demunições, de milho, feijão, farinha e outros gêneros alimentícios.
Nêsse momento as portas de minha casa foram por duas vêzes atacadas a golpes, mas eu logo as abria e conseguia, como Juiz de Direito, obter o devido respeito.
Numa dessas ocasiões inquirí pelos chefes dos combatentes, sendo-me respondido que nenhum viera com ê1es; que conquistaram o Crato por si, obedecendo, apenas, a um companheiro mais graduado.
Tive, então receio daquela malta sem chefes e sem direção e pedí que me guardassem a casa de novas investidas, sendo atendido.
Tôdas as lojas e habitações foram abertas, com ou sem arrombamento, mas não houve propriamente saque, porque os varejadores somente retiravam, como já disse, armas, munições e alimentos. Disto tive uma boa prova. Minha casa abrigava vários rabelistas que não quiseram, ou puderam fugir corrente a luta.'
Uma ilustre família minha vizinha, família do Dr. Sarrido da Nóbrega, temerosa de que lhe houvessem roubado os valores abandonados, conseguiu mandar uma pessoa sua ver o estado. da residência e o portador voltou trazendo várias jóias e um vaso cheio de moedas de prata que encontrara no meio dos objetos revolvidos e abandonados! Ondas e mais ondas de povo chegavam, porém, do Joazeiro e essa gente esfaimada, cubiçosa e repelente, encontrando as casas abertas fez mão baixa em tudo. Não sei se os guerrilheiros, arrependidos da maneira louvável porque se tinham havido, ajudaram os furtadores mas o certo é que foram acusados de terem esquecido ordens expressas do sr. padre Cícero e dos outros chefes no sentido de se limitarem a tomar as coisas de guerra e de bôca.
Somente a 26 ou 27 o Dr. Floro Bartolomeu e o Dr. Borba chegaram ao Crato, onde permaneceram até que, tomadas certas providências, a cidade foi entregue ao sr. coronel Antônio Luiz Álves Pequeno.
Estava finda a revolução alí mas o sossêgo somente muito tempo depois voltaria, porque o sr. coronel Antônio Luiz não pôde evitar que a pilhagem se repetisse, agora nos estabelecimentos comerciais, que os boatos alarmantes proliferassem, que, afinal, subsistisse a insegurança e o mal estar até o fim da campanha.






Notas Explicativas redigidas por Fernando Livino de Carvalho, advogado e escritor, filho do desembargador Carlos Livino de Carvalho.

NOTA nº 1.

Pelos fins do século passado.. o Joazeiro era um insignificante povoado perdido no sertão do Cariri, região da zona sul do Estado do Ceará. Com menos de duzentos habitantes não possuia talvez mais de trinta casinhas pobres plantadas no arredar de pequena Igreja, No dia 6 de março de 1889, diz a tradição e dizem as crônicas, ocorreu, no pequeno lugarejo, um fato de espantar. Foi o caso de quando, na Igreja, uma mulher de nome Maria de Araujo recebia das mãos do padre Cicero Romão Batista a hóstia da comunhão, esta transmudou-se de inopino em rubro sangue quente e vivo, E o. certo é que o estranho fenômeno repetiu-se persistentemente em muitas outras ocasiões, E a notícia do extraordinário acontecimento espalhando e difundindo-se abalou o sertão inteiro, E de tôda a dilatada região do Nordeste brasileiro vieram homens, mulheres e crianças, numa constante migração, para ver de seus próprios olhos o milagre.
I E tão continuada foi a romaria e tão persistente que, menos de seis lustros depois, em 1914 ao tempo da revolta do Crato, o Joazeiro contava perto de trinta mil habitantes.
Com o passar dos anos, o interêsse popular por Maria Araújo arrefencendo até desaparecer de todo
Em oposição, a figura singular do Padre Cícero tomava, a pouco e pouco e por graça de seus próprios méritos, realce e prestígio, por modo a tornar-se ele o mais influente e querido homem público do interior cearense onde, durante quase meio século, exerceu nobre apostolado cristão.


NOTA n° 2

O Dr. Floro Bartolomeu da Costa, médico formado em Salvador, era baiano de nascimento.
Nos começos de 1908 chegava êle ao Joazeiro do Ceará na atença de que a terra era rica em minas.
Inteligente, culto, vivo, de pronto aIcançou impor-se à confiança e estima do padre Cícero Romão Batista de quem mais tarde, viria a tornar-se conselheiro e guia político.
Foi êle inspirador e chefe absoluto da rebelião do Joazeiro, que, levada a bom têrmo, logrou derribar o govêrno estadual do coronel Franco Rabelo.
Nessa emprêsa, de que recolheria honra e preitos, usou dos romeiros do padre Cicero o qual lhe emprestava a fôrça da própria influência e prestígio. Isto foi no ano de 1914.
Político hábil, por várias vêzes, elegeuse deputado do povo cearense junto à Câmara Federal.
Em 1926, o Presidente da República confiou-lhe a dura tarefa de, no setor sul do Estado do Ceará, opor resistência à marcha das tropas revoltos as de Luiz Carlos Prestes.
Dando cumprimento à incumbência, êle alcançou impedir que a coluna do chefe revolucionário invadisse o Cariri.
O Govêrno Federal, reconhecendo-lhe merecimentos, conferiu-lhe o título de general do Exército Brasileiro.
O Dr. Floro Bartolomeu da Costa faleceu, no Rio de Janeiro, a 28 de Março de 1926.

NOTA n° 3.

A "A Tomada do Crato", tal como neste livro se contêm, é trecho de uma carta dirigida por C. Livino de Carvalho a Floro Bartolomeu.

Fernando Livino de Carvalho