Discurso de CÂNDIDA MARIA SANTIAGO GALENO quando da sucessão na Cadeira 35 da Academia Cearense de Letras
Srs. Acadêmicos:
Cumpre-me ao tomar posse da cadeira 35, para a qual a vossa magnanimidade me elegeu, cadeira patrocinada por Tomás Pompeu de Sousa Brasil e ultimamente ocupada' por Carlo Livino de Carvalho, fazer o elogio dessas duas figuras do maior realce panorama mental do Ceará. Comecemos pelo último, para dar cumprimento ao preceito evangélico os últimos serão os primeiros.
Carlos Livino de Carvalho nasceu no Recife, na rua Estreita do Rosário, em 17 de fevereiro de 1881, sendo filho legítimo e único do perito contador e Cel. da Guarda Nacional Francisco Livino de Carvalho e de sua mulher Ana Josefina Ribeiro de Carvalho. Infância e adolescência, passou-as na mesma cidade. Fêz preparatórios no Colégio Pritaneu, na rua do Hospício, e o Curso de Direito na Faculdade do Recife, bacharelando-se em 17 de março de 1902, quando dela era Diretor o Dr. Joaquim Tavares, sendo seus colegas de turma José Queirós, Barros Guimarães e Cunha Melo Filho, de Pernambuco, Sebastião Fernandes e Galdino Lima, do Rio Grande do Norte. Turma pequena, em virtude de os seus componentes , terem feito 2 anos num, o que naquela época era permitido.
Augusto Vaz, Sofrônio Portela a e Tito Rosa foram os seus professores.
Concluído o curso, Livino de Carvalho tratou de pôr em dia os negócios do coração - já andava enredado pelo amor da jovem Elvira de Meneses, que frequentava a Escola Normal Pinto Júnior, onde se formou com 16 anos e foi nomeada professôra da referida Escola. Como já se amavam havia dois anos, trataram de casar-se, o que ocorreu em maio de 1902. O casamento foi simples, realizou-se em Olinda, na capela de S. José dos Pescadores, oficiado pelo então vigário e mais tarde Primaz da Bahia, D. Álvaro Augusto da Silva. Era noite e chovia torrencialmente, sinal de sorte para os nubentes; noivo e convidados tiveram dificuldades em fazer com trajes enxutos o trajeto entre o Recife e Olinda. O bom prenúncio da chuva realizou-se na vida dêles - foram felizes e viveram muitos anos: êle amou extremamente a espôsa, •com quem celebrou 47 anos de casados e Os 9 filhos que ela lhe deu, e dos quais estão vivos Maria de Lourdes Livino Pôrto Carrero, residente em Fortaleza, Fernando Livino de Carvalho, advogado e intelectual, radicado no Recife; Ari, Fiscal-Geral dos Comerciários no Rio de Janeiro, e Euvaldo, técnico em- eletrônica, todos quatro a continuar galhardamente a tradição de cultura e integridade moral legada pelos pais.
Formado e casado, Livino de Carvalho tratou de instalar, em 1904, em Carpina, com um colega, Alfredo Bittencourt, o "Colégio Sete de Setembro", onde estudaram, como alunos internos, Assis Chateaubriand e seus irmãos Jorge e Osvaldo.
O mestre recordaria pelos anos em fora o fulgor da inteligência do grande às do jornalismo brasileiro, que foi seu aluno em Carpina, e a quem dedicou sempre inalterável estima.
. O "Sete de Setembro teve duração efêmera, menos de dois anos. Desfeito o Colégio, Livino viajou para o Rio de Janeiro, onde permaneceu alguns meses. De volta, foi convidado para ser Juiz em dois pontos extremos e opostos do país: Amazonas e Santa Catarina, não aceitando nenhum dos convites.
Em novembro de 1907, foi nomeado Juiz Municipal de Barbalha, no Govêrno do Dr. Accioly. Nomeado Juiz de Direi to do Crato, ali permaneceu por mais de 2 anos. Estava-se no tempo do Govêrno de Marcos Franco Rabelo e intensa onda de oposição lavrava por todo o Ceará, especialmente no sul do Esta-
do, onde o Dr. Floro Bartolomeu da Costa, que voltava do Rio de Janeiro, acompanhado do "Dr. José de Borba Vasconcelos, instalou Q. quartel-general da oposição ao Governo. Livino de Carvalho escreveu excelente trabalho - "A Tomada dó Crato" (1) onde descreve com muito vigor de expressão e abundância de minúcias êsses fatos. Como Juiz de Direito, teve que permanecer à frente da Comarca, sendo um dos poucos moradores da cidade que não abandonou a casa e ainda "abrigou vários rabelistas que não quiseram ou puderam fugir corrente à luta".
Foi com pranto na voz e no olhar que D. Bidon me relatou algumas passagens da vida do marido, quando Juiz no interior, os perigos que arrostou por não abdicar da sua dignidade de magistrado íntegro em favor de nenhuma conveniência pessoal ou partidária. No exercício das suas funções, êle era austero, sem deixar de ser humano, o que se evidencia sobejamente através dêste fato que me foi relatado por ela:
Certa feita, um criminoso de 7 mortes, alcunhado de Zé Pequeno, fôra prêso na Serra de São Pedro e trazido algemado de mãos e pés para a cadeia do Crato. Muito maltratado pelas algemas, êle mandou pedir ao Juiz que o livrasse delas. O pedido alarmou â guarnição do presídio em face da alta periculosidade do suplicante. Não obstante isso, Livino de Carvalho mandou tirar ao prêso as algemas. Qual não foi a sua surprêsa quando, por ocasião da tomada do Crato, os romeiros lhe batem à porta e, ao abri-Ia, o Juiz depara-se com Zé Pequeno a comandar o grupo. Criminoso e magistrado defrontam-se e o primeiro bate em retirada, não sem antes ter dito: - O Dr.mora aqui? Pois fique certo de que a sua casa está garantida.
Naquela ocasião de subversão da ordem aconteceu o inesperado - a casa do Juiz foi guardada e defendida espontâneamente pelo temível Zé Pequeno, que não esquecera o alívio que lhe proporcionara a retirada das algemas.
No Crato se encerraria o perigrinar de Livino de Carvalho pelas comarcas do interior, pois, em 1914, era nomeado Juiz de Direito de Casamentos e do Registro Civil de Fortaleza. Nesse posto êle casou meio mundo - Dr. Eliezer Studart da Fon-
seca e D. Ester Salgado foram casados por êle e quanta gente mais!
Livino de Carvalho integrou-se de tal maneira na vida cearense que, solicitado a aceitar, no Recife, sua terra natal, o cargo de Desembargador, recusou-o, mas com ele foi distinguido em 1933, no Ceará, já servindo interinamente no cargo, quando ocorreu a sua promoção. “E quando, em 1941, afastou-se da vida pública pela aposentadoria, depois de mais de 30 anos de assinalados serviços prestados à magistratura cearense, eis como Eusébio de Sousa comenta o fato:
"Muito lhe honra a atitude do Tribunal. de Apelação ao tomar conhecimento do requerimento em que solicitava, ao governo, aludida aposentadoria, resolvendo, pela unamidade de seus pares, fazer um apêlo ao seu douto membro na desistência da mesma, sendo então designada, para entender-se com o desembargador Livino sobre o assunto, uma comissão composta dos desembargadores Leite de Albuquerque, Olívio Câmara e Daniel Lopes. Na sessão ordinária de 15 de setembro do aludido ano o Des. Livino de Carvalho expressou ao Tribunal os seus agradecimentos ao modo carinhoso que tivera para com a sua pessoa no propósito evidenciado, gesto por demais honroso para a sua vida de magistrado. Apresentou aos seus dignos colegas os justos motivos que o levaram a requerer a aposentadoria em aprêço, manifestando aos mesmos sua gratidão, com a reafirmativa de não lhe ser possível atender o pedido da Colenda Côrte de Justiça, pelas razões que expunha no momento.
Na sessão de 31 de outubro, o sr. Desembargador Olívio Câmara, aludindo à nomeação do Dr. Pontes Vieira para preencher a vaga do Desembargador Livino de Carvalho, teve, para com este, palavras elogiosas, propondo, por fim, ao Tribunal, a inserção de um voto de aplauso ao mesmo pela sua atuação inteligente e proveitosa, durante o período de oito anos em que S. Excia. serviu no Tribunal à causa da justiça como juiz esclarecido, íntegro e trabalhador. Tal voto teve a aprovação de todos os demais desembargadores presentes à sessão, manifestando o Dr. José Pires de Carvalho a solidariedade da Procuradoria-Geral à deliberação do Tribunal.
De grande significação para a sua vida funcional é o seguinte telegrama firmado pelo Sr. Major Roberto Carneiro de Mendonça, ao ter conhecimento da aposentadoria do Desmbargador Livino. Quando Interventor Federal, o Major Carneiro de Mendonça sancionara e dera execução à Lei n. 1.007, aumentando de mais dois o número de desembargadores do tribunal de Apelação, tendo então contemplado o digno magistrado com a nomeação para um dos ditos lugares, ato recebido, pela sua justeza e acêrto, com expressivas demonstrações de regozijo.
“Rio,28 - setembro, 1941 - Desembargador Livino de Carvalho – Fortaleza - Recordando, com prazer, aplausos recebidos quando promovi sua elevação Tribunal Justiça, lamento judiciário cearense esteja privado brilho sua colaboração. Cordialmente, Carneiro de Mendonça." (2)
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Falei-vos até agora de Livino de Carvalho como homem púb1ico, no exercício da árdua tarefa de magistrado, mas não se resume nisto a existência de uma criatura.. Não vos disse ainda que ele “foi poeta, sonhou e amou na vida". E é pena que dos seus vesos, publicados na imprensa, só possua para mostrar-vos êste sonêto:
A V E M A R I A
Ave Maria! excelsa de candura!
Cheia de graça, amor e sofrimento,
Outorga-nos teu mago valimento
E a nossa dor modera, a nossa agrura.
A luz criadora em ti se fêz alento,
Oh! Flor do céu, de tôdas a mais pura,
E das virgens bendita pela alvura
Do leito em que vagiu um deus-portento.
Mãe dos humildes, vela a nossa estrada
Cheia de urzes, desbrava-a e põe luz
Onde tateio e os olhos não vêem nada
Protege-nos, bendiz a nossa cruz,
Como eu bendigo a tua dor sagrada,
Teu doce, meigo e divina Jesus!
Homem de trato fidalgo, porte elegante e bela fisionomia, Livino de Carvalho tinha temperamento alegre e• comunicativo, gostava da vida social, freqüentava clubes, sendo. Diretor Presidente dos "Diários", ao qual comparecia assiduamente. O Dr. Eliezer Studart, seu grande amigo e que privou longamente da sua intimidade, ainda conserva encantamento do convívio que mantiveram.
A política jamais o seduziu e os altos postos que galgou na vida - Secretário do Interior e da Justiça por duas vêzes, Secretário de Polícia e Segurança Pública, Interventor Federal, não os deveu a ela, senão à sua integridade moral, ta,lento e cultura.
O "hobby" predileto de Livino de Carvalho era a arte fo• tográfica: foi um dos fundadores da Sociedade de Fotografia e Cinema. Vi em sua casa álbuns com fotografias belíssimas por êle apanhadas - ora um quebrar de onda, ao alvorecer.
surpreendido pela objetiva, na Praia de Iracema, ora os carnaubais da estrada de Mecejana, a refletirem-se no espelho das aguas; marinhas, chegadas de jangada ii praia. Saraiva Leão foi seu companheiro dedicado e excursionaram juntos para apanhar flagrantes fotográficos surpreendentes.
Como homem de letras, não ficou circunscrito aos trabalhos de doutrina e jurisprudência. Tanto se dedicou ao jornalismo, dirigindo o "Correio do Ceará" em sua primeira fase e redatoriando o "Estado do Ceará", como a estudos sérios, que o levaram a pertencer ao Instituto do Ceará. Seu trabalho A COUV ADA, no domínio da antropologia, logrou tal destaque que o Dr. Afonso de Taunay, então diretor do Museu Paulista, solicitou ao autor permissão para incluí-lo nos ANAIS do referido Museu, Com a oferta de uma separata.
A COUVADA, curiosa prática entre os nossos selvagens tupinambás, guaranis e outros, de guardar o marido o leito, quando a mulher pare e de ocupar-se dos cuidados do recém- nascido, bem como de receber agrados e demonstrações de alegria dos amigos e parentes, enquanto a parturiente; como se como se nada houvesse acontecido, desempenha normalmente os encargos domésticos, A COUVADA foi exaustivamente pesquisada em suas origens por Livino de Carvalho e o alto mérito desse trabalho pode ser avaliado por essa solicitação de publicidade por intermédio do diretor do Museu Paulista.
Além d'A COUVADA e A TOMADA DO CRATO, há também o estudo EGASTENIA, incluído no livro que, reunindo os três trabalhos em aprêço, foi publicado ultimamente, no Recife, por seu filho Fernando. .
Quando Livino de Carvalho, muito doente, procurou o Rio de Janeiro como última esperança, o destino armou-lhe ali curiosa cilada - professor e aluno que tão cordiais relações mantiveram em tempos idos, no Colégio de Carpina - Livino de Carvalho e Assis Chateaubrind reencontravam-se sob o mesmo tecto, na Casa de Saúde Dr. Eiras, em Botafogo, sem que um tomasse conhecimento da presença do outro. A gravidade do estado de saúde de ambos fêz com que se ignorassem mutuamente.
A morte marcara com eles aquele encontro sinistro, do qual Chateaubriand salvava-se miraculosamente, enquanto Livino sucumbia em 8 de abril de 1960.
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N O T A S
1- “A Couvada – A Tomada do Crato – Egastenia” – C. Livino de Carvalho – Gráfica Editora do Recife S.A – Pernambuco - !959.
2- “Tribunal de Apelação do Ceará” – Eusébio de Sousa – Asa Artes Gráficas S.A., Rio – 1945 – pág. 213
quinta-feira, 29 de julho de 2010
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Muito orgulho do Meu avô Carlos Livino de Carvalho !
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